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Pertencimento, liberdade e o sufocado

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Corajosamente buscamos olhar para a raiz da questão, de nada adianta entregar a vida em profundas lástimas, procurando transferir para os outros as próprias culpas e dores, isso seria apenas postergar a solução.

Era véspera de seu aniversário, completava mais uma década de vida e ela desejava olhar rapidamente para a questão, pois precisava se disponibilizar para preparar a decoração da festa de comemoração. A doença crônica grave que a acompanhava desde a adolescência tirava-lhe a liberdade de ir e vir prendia-a aos pais e restringia seu território, nenhuma viagem era possível, a doença se instalava sempre no foco principal, era para onde todos os olhares da família e dos amigos eram dirigidos. Mas naquele momento ela estava disposta a olhar e acolher o motivo da grave doença ser nos últimos quinze anos seu parceiro de vida. Queria dançar com esse parceiro a dança de despedida naquela comemoração.

No centro da sala, um homem representava a doença restritiva e a jovem olhava atentamente para ele, que por sua vez olhava ao longe, muito longe, com o olhar perdido, mas ao mesmo tempo procurava algo além do horizonte. A dor já se estampava no rosto do homem. Em outro extremo da sala a simples presença de outra pessoa, agora uma mulher, parece ameaçar de morte o homem que representava a doença. O medo  nele vai se intensificando e o aterroriza tanto que ele cai e se transforma em uma criança que tosse e aperta o próprio pescoço. Neste momento a jovem se recorda de um sonho infantil onde a mãe a sufocava. A criança se debate, tosse e se sufoca. A mulher ao seu lado olha com alegria para a cena e quando, enfim, a criança esmorece e morre, a mulher se exalta e grita.

“Estou livre! Agora estou livre!”.

A jovem aos prantos olha para a mulher que representa a assassina a encara e a acusa: “Não entendo porque ela está tão feliz, ela matou a criança.” Mas a própria acusação é a revelação da identificação inconsciente dela também com a assassina. Então, ela se deita ao lado da criança morta, representada pelo homem, e aos poucos deitada ali ao lado, em reconciliação e perdão, a identificação vai se desfazendo, ao reconhecer a dor da criança pela exclusão da vida e pode deixá-la em paz em profundo sentimento de reconciliação e perdão.

A dupla identificação com a criança assassinada e com a assassina mantinha a jovem em lealdade aos antepassados que haviam entrado em conflito. Através da doença que inconscientemente se impunha a restrição da liberdade lhe era garantida.

Dois anos se passam após essa Constelação Familiar e ela conta que ao terminar este trabalho, ela não se sentia mais como uma adolescente, seus braços e pernas pareciam estar desconectados e o chão parecia não existir, pois flutuava em gratidão.

Conta ainda que ao apagar as velinhas só aparecia o sentimento de gratidão de estar presa para sempre aos antepassados, agora saudavelmente e por ter conquistado a liberdade de ir e vir, honrando e reconhecendo o triste episódio que havia se passado anteriormente.

Sentir-se pertencendo é a maior sensação de conforto que podemos experimentar. A necessidade de pertencer é básica, seja pelo contato físico, pelo compartilhamento de idéias semelhantes, seja por ações coerentes com as do grupo. Esse sentimento de pertencimento ultrapassa na maioria das vezes qualquer barreira social, moral, legal ou racional, pois é inconsciente. A dor de romper com a barreira do pertencimento é grande demais, por este motivo, muitas vezes damos nossa liberdade e até mesmo nossas vidas em prol do grupo, sem que conscientemente possamos compreender o que ocorre.

A necessidade da segurança de pertencer à família, ao grupo de trabalho, ao clube favorito, ao partido é a força motriz para as ações. São as vivências, as experiências comuns e normais para aquela família ou grupo ao qual o indivíduo pertence que regem as ações individuais.

Da mesma forma, sentir-se excluído é a maior dor que pode ser experimentada, tão grande que o próprio sistema se reorganiza para que um descendente possa honrar com desajuste de saúde, afetivo, profissional ou financeiro quem no passado foi excluído. Reconhecer e honrar essa exclusão re-harmoniza o sistema, permitindo que o indivíduo afetado possa se libertar de sua dor.

 

Virginia Portugal é Arquiteta e Consteladora desde 2010, formada pelo Hellinger-Landshut
Institut de Lorenz Wiest.

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